N7 Entrevista – Jornalista José Padilha da Aldeia Camurupim-PB para o Rio de Janeiro-RJ

No primeiro episodio desse novo formato, a equipe N7 fez uma entrevista exclusiva com José Ferreira Padilha Netto, popularmente conhecido como Padilha, o jornalista e ator saiu da sua Aldeia em Marcação-PB para tentar a vida no RJ.

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Netto Padilha esbanjando seu sorrisão. Foto – Arquivo pessoal

José Ferreira Padilha Netto, popularmente conhecido como Padilha, é natural da Aldeia Camurupim no município de Marcação na Paraíba. A sua insistência e perseverança fez com que ele avançasse ainda mais em busca dos seus sonhos. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, Padilha, se tornou o primeiro indígena a ter uma qualificação de estudo em sua comunidade. Em um bate-papo exclusivo ao N7, Padilha conta um pouco sobre a sua trajetória como ator em uma Websérie, bem como os desafios e também lições que ele vem aprendendo desde então;

Confira a entrevista:

Falando em formação acadêmica, o que te motivou a escolher essa profissão? Durante o curso existem oportunidades em estagiar, como foi a sua experiência realizando o estágio na aérea da educação?

Na verdade, fazer jornalismo era uma possibilidade quase pequena, porque eu sempre quis muito cursar artes cênicas, mas quando eu falei para minha família o que eu queria ser como profissional, eu não tive o apoio suficiente deles, talvez pelo tabu do qual a profissão de artes cênicas não é valorizado financeiramente. Com isso, comecei a pensar, o que chegaria mais perto de atuar, lidar com TV, mídia etc, cheguei a conclusão que seria o Jornalismo. Não me arrependo em momento nenhum de ter cursado jornalismo, pois consegui amadurecer, conhecer pessoas incríveis das quais carrego até hoje e tive experiências que jamais vou esquecer.  

Nunca trabalhei efetivamente na área do jornalismo, mas tive a oportunidade em estagiar, a minha primeira experiência foi como redator de uma revista, da qual eu carreguei nas literalmente nas costas a revista inteira, pude ser premiado por todo esforço a esse trabalho e foi muito gratificante. Já estagiei também em assessoria que para mim foi uma grande porta de oportunidade. A minha relação com a educação já vem desde a Aldeia, pois eu já fui Diretor da Escola Indígena na cidade da Baia da Traição. E foi através dessa relação que eu desenvolvi a minha maturidade, eu consegui crescer e perceber o quantos a pessoas precisavam de mim. 

Netto Padilha – Foto – Arquivo pessoal

O que te motivou a sair da sua cidade Natal? Qual foi o seu maior objetivo, o que você buscava ou pensava em alcançar para querer sair do estado da Paraíba?

Aos 11 anos meus tios me levaram para morar em Cabedelo – PB, porque eles viam em mim um futuro, que talvez a minha mãe não conseguia enxergar. Ter saído do interior já foi muita coisa, porque eu tive que criar responsabilidade muito cedo, eu tinha que estudar e cuidar da casa ao mesmo tempo. No começo foi bastante doloroso, porque eu só tinha 12 anos, mas também foi bastante prazeroso, porque meus tios quiseram me ensinar a ter responsabilidade e tudo que eu aprendi nesse tempo, me ajuda nos dias de hoje. Eu saí em 2019 da Paraíba em busca dos meus sonhos, com objetivo de fazer artes cênicas, crescer na área e cursar o teatro, bem como, conhecer outra cidade e me aventurar em novos caminhos; 

Como foi pra você sair da sua cidade sozinho?

Sair sozinho nunca foi um problema, para quem acredita em astrologia eu sou sagitariano, então sou uma pessoa muito livre. E os meus tios sempre me ensinou a como enfrentar a vida sozinho, o que pesou bastante foi a minha família, porque eu sou muito apegado. Quando eu cheguei aqui, eu adoeci, tive febre emocional, tive conflitos com pessoas que conviviam aqui, mas no final deu tudo certo. Hoje continuo sozinho, mas isso não é problema, é uma loucura mas é algo que sempre vi que não era um problema. Eu pude curtir o carnaval sozinho e conhecendo novas pessoas, então isso para mim é muito incrível.

Netto Padilha – Foto – Arquivo pessoal

Porque você escolheu o Rio de Janeiro? Quais foram as maiores dificuldades e desafios que enfrentou e/ou enfrenta?

Eu cheguei no Rio de Janeiro em setembro de 2019 e em março de 2020 começou a Pandemia da Covid-19, talvez eu ter escolhido o RJ pode ter sido algo imaturo, da qual eu não pensei muito, eu só quis vim; Mas, eu acho que o maior desafio foi morar sozinho, porque eu só consegui morar sozinho e me instabilizar uns seis meses depois. A escolha de vim para o RJ foi a visão que eu tinha da Rede Globo, para mim era a maior emissora, era um lugar que eu achava que eu poderia contar. Mas, na verdade a área não funciona  bem assim, eu cheguei aqui muito imaturo, sem informação na área, eu vim só com os meus conhecimentos empíricos, não foi só um simples desejo, na verdade foi o meu sonho. A minha maior dificuldade foi se encaixar na área artística, porque é preciso conhecer as pessoas certas. Logo que cheguei eu consegui emprego, não na minha área, foi meio que uma loucura minha, mas eu não me arrependo e é o que eu consigo me sustentar até eu consegui entrar no meio artístico. Outra coisa que foi bem desafiador, foi o preconceito que sofri, pelo meu sotaque, passei por uma situação constrangedora no carnaval, mas eu não deixo isso estragar a minha energia. 

Netto Padilha – Foto – Arquivo pessoal

É notório que muitos brasileiros, paraibanos, têm um sonho em sair da sua cidade Natal para tentar a vida lá fora. O que você diria a essas pessoas? Quais os conselhos e motivações;

Nada é fácil, principalmente sair do seu conforto. Primeiro que eu senti muito em pagar o aluguel (risos) porque o custo aqui no RJ é muito alto, eu senti bastante isso. Mas, eu diria que se realmente a pessoa quer e acredita nos seus sonhos é preciso ser forte, eu acredito que é por isso que ainda estou aqui e não desaminei em nenhum momento. Não é fácil, eu tenho uma visão que as pessoas aqui no RJ são muito mal educadas, elas só pesam em si e fazem de tudo para derrubar você, é muito difícil, mas você precisa acreditar em você e nos seus sonhos. A parte boa disso tudo é que você consegue se prontificar como pessoa, como profissional, você consegue amadurecer. Manter a mente sempre focada é o caminho.

Uma das coisas que você mais deve pensar ou lembrar é da sua família e amigos. Como você consegue lidar com a saudade?

Netto Padilha – Foto – Arquivo pessoal

Sempre é muito difícil falar em família, eu chego até a chorar, porque sou muito apegado e cada dia é uma saudade diferente. Logo quando me mudei, eu deixei o meu sobrinho muito pequeno e agora ele já vai completar cinco anos, então é uma coisa que me dói muito, porque eu queria acompanhar, estar perto, levar ele na escola etc. Eu estava de férias e fui exatamente na época que eu ia começar a estudar, eu pude levar ele no primeiro dia de aula e isso para mim foi muito gratificante. Eu sinto muita falta da minha família, da minha avó, da minha mãe, mas eu confesso que eu não quero voltar, porque eu vivi coisas na Paraíba que me deixaram muito triste, e isso faz com que eu não queira voltar. A saudade da família é imensa, da comida, do abraço, de tudo, mas estou aqui para o meu bem e para um futuro melhor para eles. É literalmente uma loucura, é uma dor misturada com realização e isso é o que me conforta.

Há pouco tempo, você conseguiu conquistar um grande passo, estreitou como ator em uma série. Conta um pouco como foi esse processo, desde o início, como surgiu, a preparação…

Essa é a minha parte favorita, pois é o meu sonhos, eu falo com maior sorrisão, embora seja um passo bem pequeno, mas não tem explicação. Eu reconheço que preciso muito estudar, inclusive a escola que eu quero estudar está fechada por causa da Pandemia da Covid-19, o processo seletivo para entrar é muito concorrido, eu não sei como vai ser o estudo, na verdade vai ser eu e Deus e acabou (risos). Eu já conheço muito artista aqui no RJ e através de uma conversa meio que informal, me falaram sobre essa série que é bastante conhecida no mundo LGBT e também no RJ. Eu fiz uma pequena entrevista com o diretor da série ‘FOUR’, ele me deu um ‘presentão’ que eu não consigo nem definir. Foi muito legal, eu sempre trabalhei no meio artístico no teatro, sempre tive um pouco de dificuldade porque eu me expressava muito, gesticulava bastante e na TV eu precisava me segurar porque eu tinha que ficar naquele enquadramento e isso dificultou um pouco porque eu queria tomar conta do set (risos). Mesmo com tudo isso, eu fiz a entrevista e ganhei o personagem Álvinho que é um vilão que inferniza do começo ao fim (risos). Sem dúvidas esse papel me amadureceu bastante, porque eu consegui enxergar o quê eu precisava melhorar, estudar e também reafirmei o quanto eu sou bom no que faço. Toda vez que eu me assisto eu fico admirado, porque foi o meu primeiro trabalho audiovisual com pessoas que já tinha experiência nesse meio, para mim foi muito incrível. 

Confira a Websérie aqui.

Netto Padilha – Foto – Arquivo pessoal

 

RAPIDINHA COM PADILHA

UM NOME: Gabriel
UM SONHO: Estabilidade
UM LUGAR: Dubai
UM DESEJO: São vários!
UMA META: Globo
DEFINA SUA VIDA ATUAL EM UMA PALAVRA: Loucura

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Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Uninassau João Pessoa, Anne Fayelle, começou sua carreira jornalística trabalhando como estagiária no setor de Mídias Digitais da Rede de Lanchonetes Manaçaí. Durante a sua carreira acadêmica teve que abdicar um pouco do tempo destinado a faculdade para se dedicar inteiramente a maternidade. Após o período materno pôde retornar a academia, e estagiou como Produtora na TV Manaíra - afiliada a Band, onde aprimorou seus conhecimentos através da produção jornalística e pode vivenciar de perto o dia a dia de uma emissora de TV. Atualmente atua no setor de Mídias Sociais do Programa do Artesanato Paraibano - PAP (Programa Governamental responsável pela cadeia produtiva do artesão paraibano) desenvolvendo campanhas de interação com o público e artesão (através de sorteios semanais) e alimentando as redes com o conteúdo próprio do PAP. Conciliando a maternidade com o trabalho, matem acesa a sua vontade excessiva de escrever e compartilhar sobre a maternidade para outras mães de primeira viagem. Seu intuito é de escrever um livro. Bem como, está em constante busca de novos conhecimentos e habilidades para a sua área profissional.

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